04 julho 2009

"alguma coisa acontece no meu coração"*

há quase 3 anos eu me mudei para São Paulo: a maior metrópole do Brasil! e da América do Sul!!! não foi propriamente uma escolha pela cidade, mas por viver ao lado do, hoje, meu marido - ou, pensando um pouco, até pode ter sido, já que escolher ficar ao lado dele implicava viver aqui. de qualquer forma, ela tornou-se, assim, a terceira cidade da minha vida, depois de Pará de Minas - município dos meus pais, onde passei minha infância e adolescência - e Belo Horizonte - onde cursei a faculdade e iniciei minha carreira profissional.

e as mudanças, também de endereço, em geral, forçam-nos a mudar, em alguma intensidade, nosso jeito de ser e vestir. foi, é certo, o que aconteceu comigo, aos 18 anos, quando migrei para a capital mineira e, mais recentemente, para a capital paulista, embora os processos tenham sido diferentes no que diz respeito "a cidade" e sua influência no meu comportamento.

dá para enxergar mineiridades nos
desfiles do verão 2010 das grifes
mineiras
Graça Ottoni e Coven?
(clique em cima da imagem para ampliá-la)

é que Belo Horizonte está a apenas 80 km de Pará de Minas e configura-se, ao meu ver, como uma grande "terra de mineiros", vindos de todas as partes do estado. isso possibilitou-me, naquele momento, o conhecimento de algumas diversidades, mas também o reconhecimento de muitos hábitos, jeitos e sabores.

Sampa, por sua vez, não me apresentou mineirices (claro!), mas, além disso, não me mostrou "uma" cultura, "um" povo, como eu estava acostumada. o que vi foi uma diversidade de culturas e uma grande quantidade de povos de todo o Brasil e do mundo inteiro - isto é, diferenças que de tão grandes eram sentidas, em alguns momentos, como "o avesso do avesso do avesso", produzindo o cada um do seu modo, do seu lado, sem diálogo, sem troca.

foi aqui que comecei a usar sapatos mais baixos, que me permitissem looongas caminhadas. investi em paletós 100% lã, que realmente aquecessem. redescobri minhas orelhas e voltei a usar brincos, que, antes, eu preteria aos colares, broches e pulseiras. deixei de lado o secador e passei a encontrar beleza nos cabelos mais ouriçados e até irregulares. aumentei meu interesse por peças simples, mas belas - seja no design, seja no material -, que me possibilitassem imendar "bem" o dia e a noite. e, por fim, fiquei mais à vontade para ousar nas "fantasias" - algumas roupas que faziam meu marido perguntar-me se eu estava vestida de alguma personagem.

redescobri, na capital paulista, a possibilidade de usar
sapatos baixos e de enfeitar as orelhas


ou seja, fui obrigada a me adaptar a extensão da cidade, as suas baixas temperaturas, a exigência de objetividade e percebo que perdi, em parte, um pouco da delicadeza, do romantismo e das minúcias da roupa mineira. é até curioso refletir sobre isso, de que as mudanças que me foram necessárias exprimiram-se na vestimenta. agora penso que se a mineira é mais devagar, o que a permite uma maior elaboração, uma grande atenção aos detalhes, a paulistana é apressada e sua presença tem que se fazer notar com rapidez, praticidade e ousadia.

os mineiros Victor Dzenk e Ronaldo Fraga mostram
um trabalho minucioso nas passarelas do verão 2010


em outras palavras, se o estilo pessoal de uma mineira se faz notar nas entrelinhas, já que ela tem consigo a identidade de um povo, o da paulistana é mais escancarado, mais direto, de uma "deselegância discreta", já que não há uma cultura que a identifique, mas uma grande diferença que resvala para a indiferença e exige que a comunicação de uma peculiaridade se faça de maneira veemente.

peças "de presença" adquiridas em São Paulo

e se hoje eu divido essas palavras com vocês é porque me sinto uma mineira, que "vem de um outro sonho feliz de cidade" e que não ficou isenta de sentir, no coração e na "estampa", os acontecimentos e os efeitos de um tempo já vivido em Sampa.

para suportar as baixas temperaturas da "terra da garoa",
comprei uma lã 100% na 25 de Março,
elaborei esse modelo e pedi a Maria,
minha costureira de Pará de Minas, para confeccionar

* algumas frases usadas aqui são de Caetano Veloso e estão na música "Sampa".


obs.: gostaria de sublinhar que o conteúdo desse post refere-se a UMA experiência PESSOAL e ATUAL, isto é, que parte dos elementos da minha realidade e que estão em constante transformação.