28 março 2009

quanto vale um detalhe?

ao admirar, comprar ou mandar fazer uma roupa, você presta atenção nos detalhes? eles têm valor pra você?

os botões são detalhes de uma roupa

uma vez rodei "o" shopping com uma missão precisa: comprar uma camisa branca para acompanhar um belo costume (calça e paletó) preto. foram várias (muitas!) lojas visitadas e a maioria delas tinha um modelo de camisa branca. por que, então, uma camisa branca era tão distinta de outra camisa branca? certamente por causa do tecido (se de algodão, se com elastano...) e do corte (se reto, se acinturado...), mas também devido ao tamanho do punho (mais estreito ou mais largo), o formato da gola, o tipo de botão até o ponto da costura ou a linha usados. isto é, pelos detalhes, que são as partes que compunham a tal camisa branca, tomadas em separado.

detalhes são vários.
aqui, laço e prega macho nas costas de uma saia;
gota e franzido numa blusa de tecido com textura;
mais uma vez, prega macho, agora nas costas
de um paletô de cotelê de algodão


saímos de lá (eu e o futuro dono da camisa) convictos de que a procura e o trabalho de um alfaiate valeriam como uma boa alternativa para o que encontramos: ora um preço muito alto, ora um tecido muito transparente ou uma pence (aquele corte de ajuste) grosseira ou um colarinho apertado. quer dizer, sabíamos que
o valor dos detalhes era uma camisa branca que vestisse bem, mas por um preço justo.

o que quero falar é que as lojas mais caras, em geral, costumam dar atenção aos detalhes e isso tem um valor, de possibilidade de vestir melhor, caindo bonito sobre o corpo. se por um lado, contudo, a idéia é entender que os detalhes têm valor, por outro lado é preciso se perguntar sobre o valor (em dinheiro) dos detalhes. logo, caso você valorize os detalhes, mas não tanto quanto as lojas lhe pedem por eles, restam-lhe algumas alternativas, como pesquisar na concorrência, procurar uma costureira ou um alfaiate, ir a um bom brechó e até pechinchar - por que não?!

os detalhes aparecem em todas as peças do vestuário,
como esses exemplos de cortes, fivela,
textura, nó e nervuras nos sapatos


acontece que hoje em dia, com o mundo globalizado, onde as idéias e informações circulam rapidamente, cada vez importa mais distinguir, de maneira crítica, as ofertas do mercado, do porque de tantas diferenças de valores para peças de aparências tão iguais. de certo modo, importa atentar aos detalhes pois são eles que têm feito diferenças, mesmo que sutis. em outras palavras, são os detalhes, enquanto especificidades de uma roupa ou de uma vestimenta que produzem particularidades e, nesse sentido, que contribuem para um estilo pessoal.

detalhismos:
pregas, aplicação de rendas, paetê, laço, sianinha
e forros nos paletó
s

o meu pai, por exemplo, que é um senhor de idade, aprecia camisas sempre de um mesmo jeito e com o detalhe de um bolso na lateral esquerda. por conta disso, elas são confeccionadas por uma costureira que, de forma habitual, repete o "gosto do freguês", mas criando bolsos muito diversificados.


modelos diferentes ajudam a incrementar o bolso esquerdo
- a marca pessoal de meu pai

assim, embora as camisas do papai sejam, como um todo, bastante particulares - já que feitas para ele - o bolso é sua marca e, de modo curioso, onde também a costureira deixa sua impressão, exercitando sua criação. em outras palavras, o bolso faz parte do estilo do meu pai e pelo jeito ele encontrou nessa costureira um meio de incrementar seu estilo.

as roupas fotografas são criações minhas, exceto as camisas de papai e a camiseta com aplicação de laço, renda e paetê, que é da antiga Boogie Star.

agradeço ao João Batista pelas fotografias dos bolsos de papai, pedidas de última hora.

23 março 2009

fina estampa

hoje eu quero falar de tendências de um outro jeito, facilitando a presença delas em nossas vidas, ao buscar referências também "pertinho de nós". vou dizer sobre a mistura de estampas, que surgiu em diversos desfiles do inverno 2009, nas passarelas do são paulo fashion week. vamos ver?

a composição de estampas apareceu como
uma ótima opção dos looks masculinos.
aqui: Ronaldo Fraga, Do Estilista, V.Rom e Colcci


unir estampas não é algo muito comum - poucas pessoas fazem - e o motivo é que não é qualquer mistura de estampas que costuma cair bem, que costuma produzir uma "fina estampa". em geral, só aquela que comporta uma regrinha, a de harmonia nas cores das estampas, o que dá a impressão de continuidade - característica de toda, ou quase toda, boa produção.

reparem, acima, que na primeira foto a mistura é de estampas de
cores irmãs (da mesma cartela), enquanto nas seguintes misturam-se estampas de cores comuns. o look da V.Rom, por exemplo - que é muito legal! - tem o rosa, o azul, o amarelo e o preto nos tecidos xadrez e listrado e que, por isso, ainda permitem a mistura com peças de tons neutros e irmãos, de cinza e bege.

estampas combinadas em roupas para elas,
de Alexandre Herchcovitch, Simone Nunes, Animale e Cavalera

vejam que a regra de combinação de estampas também se repete nesses looks femininos. na primeira foto a cor azul é que produz continuidade, já na segunda, são a bege e a verde, na terceira, as cores irmãs e na última, a preta.

essa atenção às cores na hora de "se estampar" já nos abre várias opções. dá para usar duas estampas diferentes, estampas iguais de tamanhos diferentes, estampas iguais de cores diferentes. e o mais importante continua sendo se olhar no espelho, que sempre diz se está bonito ou não.

o que ainda quero assinalar é que se isso apareceu na passarela, enquanto uma tendência de moda - algo que não é mesmo comum, pelo menos por enquanto - também não é tão estranho assim. vejam essa antiga foto de família e reparem na senhora mais velha, ao centro.

a mistura de estampas, aparentemente estranha, pode ser familiar

ela está combinando um vestido estampado com um lenço de outra estampa, mas com cores iguais. e não está fina? então, antes de concluir que unir estampas em um mesmo look é coisa apenas de passarela, que tal perceber que nossos avós já souberam como ousar na estamparia?

12 março 2009

vastas confusões entre moda, tendência de moda e estilo pessoal

esse blog foi criado com a intenção de refletir sobre estilo pessoal. a idéia, portanto, é usar informação de moda de forma crítica. em alguns posts, por exemplo, tento diferenciar moda (o jeito de vestir de muitos) e estilo (o jeito de vestir de um). tento também entender a moda enquanto comportamento, atravessada pela economia, música, política, arquitetura, história... vocês me acompanham?

por exemplo, de manhã, quando escolhemos a roupa que usaremos no dia, estamos escolhendo um modo de nos apresentar. é de um jeito que nos identifica com os nossos colegas? que nos faz aceitos no trabalho ou na escola? ou é de um jeito que nos torna diferentes? um pouco diferentes? ou muito diferentes?

algumas pessoas, como Carolina ,
mostram em seus blogs (http://fraucarolina.blogspot.com/)
a roupa que escolheram para passar o dia

se eu escolho uma roupa romântica, tipo com laços e babados, o que quero transmitir? se eu escolho uma roupa hippie, tipo bata e chinelos, o que quero transmitir? se eu escolho uma roupa chique e grifada, o que quero transmitir? e se eu pareço não escolher a roupa que visto, o que quero transmitir?

Cristiana é outra que mostra em seu blog (http://hojevouassim.blogspot.com),
o humor e as idéias do dia "estampados" em suas roupas.
nas fotos acima: um dia sexy, outro desencanado

a questão é que sempre transmitimos algo com nossas roupas, pois elas compõem nosso comportamento, falando de nossas idéias e valores. e o que transmitimos é moda? é estilo? afinal, moda e estilo não dizem respeito ao modo de vestir? então, quais diferenças e confusões existem entre eles?

vejamos. a moda é a forma como se vestem um grande número de pessoas, em uma determinada época. logo, não é só o que está nas passarelas e nas vitrines das lojas caras. é muito mais o que está nas ruas e é de fácil acesso.

na verdade, as passarelas tentam lançar moda, sugerindo o que pode cair no gosto popular, mas hoje em dia, são as novelas - na cultura brasileira - e/ou as celebridades que fazem isso com muito mais rapidez e facilidade.

outro exemplo para deixar claro que a moda é muito mais do que as coleções desfiladas é que nos anos 60 (e início dos 70) uma moda que pegou, denominada
hippie, estava traspassada pela recusa dos valores vigentes na sociedade americana, pelo interesse na religiosidade oriental e por desejos de liberdade, comunidade, paz e amor. o lema flower-power contagiou os jovens que se recusavam a servir em uma guerra sem sentido (a guerra do Vietnã, que extendeu-se por cerca de 16 anos e sacrificou milhares de vida) e estampou seus objetos e vestimentas.

vã com flores e estampas hippies

vale ainda lembrar que os hippies eram também anti-consumistas e que, portanto, incrementavam-se de trabalhos manuais - como a costura em patchwork e a pintura em tie-dye - de objetos de brechós e de misturas do que já possuíam - por exemplo, o jeans - com referências indianas.

a moda hippie em seu comportamento contracultura, anti-consumo

então, andar e estar na moda, enquanto o comportamento de uma época, é bem mais fácil do que se imagina. um pouco mais difícil é andar de acordo com as tendências que aparecem nas passarelas, ou seja, que ainda não caíram no gosto popular. a confusão "estar na moda" e "estar na tendência de moda" é muito comum e aparece, de um lado, nos que julgam "fora de moda" os que não estão vestidos com a tendência de moda e, de outro, dos que se julgam não usuários de moda por não irem atrás da última tendência de moda.

além disso, há outra confusão, entre estilo e tendência de moda. o estilo é o jeito como cada um se veste - uma espécie de marca pessoal e que, por isso, destaca a pessoa "da multidão". a tendência é o que pode vir a entrar na moda e que ainda não estando na moda, também tem um frescor que produz um destaque. mas ter estilo não é usar ou não usar a tendência de moda. a pessoa que tem o jeito dela de se vestir pode não seguir tendências ou, no mínimo, ser crítica em relação às tendências, usando apenas aquelas que combinam com ela, com o que ela pensa e é.

se hoje eu me propus a escrever tudo isso, um certo resumo esclarecedor, é para deixar evidente que a idéia do meu blog é valorizar o estilo pessoal e que, para isso, falo de moda e tendência enquanto informação e ferramenta de uso possível. tento ainda fazer com as que as pessoas possam reconhecer que a moda não é só dos fashionistas e não se resume às tendências de moda. um outro jeito de dizer é que enquanto a moda é "de muitos" e as tendências são "de poucos", o estilo é de "cada um", exigindo de quem o busca, críticas em relação à moda e às tendências, que o separe das obrigações e regras de um grupo (grande ou pequeno!), ao construir regras próprias de se vestir.

Alexa Chung é reconhecida como dona de um estilo pessoal.
ela saiu na Revista Elle deste mês (março de 2009),
assumindo não gastar muito com moda,
ao explorar peças em brechós e lojas de departamento
(clique na imagem para vê-la maior)

percebo que esses esclarecimentos entre moda, tendência de moda e estilo pessoal é o próprio conteúdo desse blog e o que me resta é prosseguir falando do assunto. afinal, acredito que aqueles que querem construir o seu modo de transmitir suas idéias com suas roupas, podem fazê-lo - com um certo trabalho e criatividade, mas podem!

07 março 2009

guarda-roupa entulho - parte 3

a última vez que falei sobre guarda-roupa - e chamei de parte 2 - foi em 13/01/2009. vamos prosseguir? afinal, é muito provável que você tenha se deparado com muita roupa encostada, sem uso, acumulando amasso, poeira e cheiro. os motivos podem ser vários: excesso de roupas ou peças repetidas (tipo muito parecidas!) ou que não servem mais ou que contêm estragos.

se você tem roupas em demasia, livre-se delas! como eu já disse aqui no blog, o excesso entulha e, de modo mais provável, não é a favor do estilo, porque não deixa as coisas visíveis e não facilita as combinações.

as peças repetidas, quando muito repetidas - o que não é incomum no armário de algumas pessoas - são um sinal de consumo desnecessário. em geral, são peças que a pessoa sabe que gosta e, por isso, compra a cada oportunidade que tem. por exemplo, vai num bazar e compra a bata que viu porque gosta de bata, mas não calcula que já tem tantas blusas do tipo bata no armário.

essas extras devem ser doados ou reservados para um "bazar entre amigos". sabe como? como um dia de encontro na casa de alguém, cada um levando as roupas (e também acessórios) para passar à frente, em trocas ou mesmo "pequenas vendas".

já as roupas que não servem mais ou estão estragadas podem ganhar utilidade, desde que reformadas. aliás, se é um bom tecido, vale a pena! algo possível com uma dose de criatividade e uma boa costureira. difícil?! menos do que se imagina!!!

olhem a roupa de uma amiga que veio parar nas minhas mãos! ela foi ganhada de uma parente, exatamente porque se apostava na possibilidade de aproveitamento. o tecido é um shantung de seda estampado em xadrez preto e branco. isto é, um tecido chique, de estampa clássica! e o modelo atual, apesar de interessante, pode ser usado em grandes eventos.

a peça que estava sem uso é em shantung de seda xadrez,
num modelo saia longa


a idéia que eu propus, conhecendo minha amiga, seu estilo e proporções, foi a de transformar a longa saia numa saia mais curta, na altura dos joelhos, e também num bolero de mangas curtas e ombros marcados (no formato de trapézio invertido) - aproveitando a quantidade de tecido e seguindo a tendência apontada no último post.

assim, minha amiga terá um conjunto de saia e bolero, que poderão ser usados juntos, em ocasiões mais formais, e separados, em ocasiões mais cotidianas. vamos imaginar?


o look 1, mais formal, encara uma festa

o primeiro look, que "vai à festa", é a saia e o bolero juntos a um scarpin e uma blusa de seda e botões forrados, ambos na cor amarelo vivo, o que confere um toque de modernidade. os complementos seriam uma bolsa carteira nas cores roxa ou azul claro e uma delicada pulseira.

o look 2, mais informal, sai para circular à noite!

o segundo look, que "vai a uma balada", é a saia com uma camiseta de malha azul royal e uma sandália rasteirinha de dedo dourada. para acompanhar, bolsa preta com alcinhas de corrente dourada e uma correntinha.

o look 3 banca uma jornada diurna

o terceiro look "vai a um passeio diurno", mas também "encara uma reunião de trabalho". é uma calça skinny em jeans escuro, uma blusa de malha rosa choque e o bolero, acompanhados de sapatilha preta bailarina e um bolsa grande preta ou prateada. para finalizar, brincos compridos e geométricos, à la anos 80.

é claro que os desenhos são apenas ilustrativos e de algumas das várias opções de looks, que podem ser modificados de acordo com o que já se tem. o principal aqui é apontar que uma roupa aparentemente perdida ganha vida com uma reforma, de maneira criativa e ainda econômica.

antes de levar à costureira, a peça deve, contudo, passar numa lavanderia para retirada de sujeiras e amarelados. aliás, jamais guarde no armário roupas sujas, com manchas, uma vez que quanto mais o tempo passa, mais difícil retirá-las. depois sim, a roupa estará pronta para ganhar novos cortes e costuras.